segunda-feira, 8 de abril de 2024

O fractal | As odisseias de Josperd

"O fractal é tal qual o amor materno. Não pode ser explicado, contudo sua benevolência também não pode ser comprovada até que seja exercida..."
-Pegue a pá e cave o solo. Iremos desenterrá-lo.
-Tem certeza? - Questionava.
-Absoluta.
-Tá certo.

Éramos poucos quando a nossa comunidade de clones se separou do todo. Havíamos fugido dos laboratórios, mas os clones ainda mantinham-se separados pelos mal-entendidos. Eu manejava com honra o papel administrativo de nosso bando, que pouco a pouco crescia.

Guerras aconteciam, e era inevitável que a frota de homens (os clones) que dedicávamos todos os dias com treino e maestria morresse de maneiras dolorosas, indiscutivelmente. Priorizávamos os serviços e a saúde do estado que estávamos formando; nosso líder sempre me cobria de elogios e esperança. Éramos menos violentos, contudo mais audazes. Por sinal, tínhamos menos pessoas, mas éramos os mais disciplinados. Contudo, nenhuma disciplina adiantava, logo, resolvemos ir para cima.

No meio das explosões, dos fuzis e dos tiros de metralhadoras, eu sempre me encontrava em lutas corpo a corpo. Feridas e hematomas me precediam. Foi então que encontrei aquele que seria a chave para a minha história e a de todos os clones: o "original", Josperd. Expliquei-lhe quem eu era e o que todo aquele tumulto significava. Falei sobre os laboratórios Cyberlinque, as guerras, nossa busca pela sobrevivência e as perseguições. Sua felicidade ao me encontrar parecia divina, mas logo se revelou a de um falso profeta. Com ele agora ordenando que seu clone cientista desenterrasse meu cadáver.

Dois daqueles que se tornariam futuros amigos daquele que encontrei, aquele que originou os clones, o qual chamamos de o "original" (Josperd), viram seus clones, Ditador e Zero, matarem-me com um tiro no peito e caiu num buraco em que meu cadáver estava junto dele, o Josperd. O "original" relutava pelo luto, ora se encontrava frágil, ora se encontrava em seus dilemas junto do meu cadáver naquele buraco. Dei minha vida pela dele, para que ele seguisse o bom caminho como seu predecessor, mas, pelo visto, nem minha vida foi suficiente para que ele não tomasse o rumo dos covardes. Logo, ele se pôs dentro do grupo rival violento, ganhando poder e regalias. Fui deixado no buraco; terra e chuva preenchiam pouco a pouco o que faltava para tampar meu túmulo. Dias, semanas, meses e anos apodreceram meu cadáver, mas, da mesma forma, ao ser desenterrado, fui levado pelo cientista e o "original", para aproveitar o que restava. Pegaram meu DNA e meu corpo, fizeram um clone de mim. Para isso, colocaram-me no fractal.

Eis o fractal, um grande sistema de máquinas e aparelhos composto por vários fractos, dos quais surgem os mais diversos clones. Com suas câmaras de clonagem, tubos de crescimento e outros mecanismos (em inglês, os C.G.C.), esculpiram todo um indivíduo que, além de comprimir ad mim, todo meu ser e essência, tornaram-no apático, como uma marionete.

Era um duas caras, o clone do clone (que sou eu). Ele era aceito nos dois polos, onde podia dominar. Fizeram da mente dele e ele foi dominado por um tempo. Mas o Fractal, que não pode ser explicado, mesmo que a clonagem não resultasse em alguém totalmente igual a mim, revelou-se com intelecto e raciocínio idênticos ao meu eu ante-morte. O clone, em tal esplendor, ao se deparar com ambos os polos, tornou-se figura isenta e fora de ambos os grupos após compreender todo o esquema de poder que ocorria, algo que não agradou nenhuma das sociedades de clones. Assim, resultando numa pequena trégua entre ambas as partes pela cabeça deste meu clone.

Fugindo, ele dedicou-se a ter um espaço só seu para viver longe de ambos. O problema não era mais a guerra; agora era se livrar de um eu clonado. Tentaram se livrar dele, mas ao fugir da morte, ele prometeu que retornaria tudo que passou e cada momento vivido ou morto se voltasse contra o povo, o qual um dia ele e eu nos dedicamos pela comunidade e aquele a quem dei a vida e o denominei de o "original", Josperd Dias.

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domingo, 7 de abril de 2024

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domingo, 24 de dezembro de 2023

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

As Odisseias De Josperd (Trecho): Os clones de Schrödinger | Josperd D.

Num primeiro ponto de vista, pensei estar louco. Vejo clones, tanto versões femininas quanto masculinas minhas, como a Phoenix e o Zero; junto de outros com múltiplas personalidades. Sendo estes um ditador, um pastor, um cozinheiro, um cientista, um físico, um lunático, uma prostituta (ou puta para os mais íntimos), uma mendiga, uma hippie, uma comunista, uma historiadora - que, por sinal, está grávida - e uma aberração, que só possui pernas, pequeno e com um estilo de cabelo mais solto e um pouco parecido com o meu; sendo estes apenas alguns dos vários que vi e que já descrevi para você, caro leitor, - ruivinha, no caso.

Decidindo, pela comunidade, um plano que envolvesse a destruição da maior multinacional do mundo, repito, do mundo! - Que tem influência tanto política quanto econômica por se tratar de um monopólio. - A Neolinque, que está nos perseguindo para esconder as fraudes e abusos que cometeram contra os clones e a minha imagem.

Mas, quando percebi... Em um segundo ponto de vista, é claro, que o que estava contemplando se tratava do maior, se não o maior experimento geopolítico, social e científico de todos os tempos, comecei a conceber toda aquela tosquisse como uma verdadeira demonstração real de uma construção de um contrato social - prisão de Stanford está no chinelo - e se tornou meu verdadeiro momento de êxtase. Nesse instante de epifania, percebi que os clones não eram simples coincidências, mas sim peças de um elaborado quebra-cabeça social, arquitetado para desafiar as normas estabelecidas.

Veja, vamos ver o interno para depois seguirmos o externo. Deixe-me pegar aquela lista de clones anterior e contextualizar o quão atual tudo isso se torna: um ditador que não tem um povo para comandar, um pastor evangélico que adora a Deus e sequer sabe se tem uma alma para ser salvo, já que se originou de uma clonagem ao invés de um processo de reprodução humana (divino), um cientista que nem se importa com a ciência, enquanto um físico é revoltado contra a própria ciência, um cozinheiro de uma comunidade inimiga à qual ele foi sequestrado, um lunático que sequer poderia ter lugar de fala em debates como estes, uma prostituta que - desculpe pelo vocabulário - sequer pode fuder ou exercer seu cargo, sendo que a clone historiadora de psicológico definhado vai ter um filho que logicamente veio do sexo que aconteceu antes mesmo de uma "prostituta", uma comunista que jamais ouviu ou sequer leu as ideias de Marx, uma mendiga que teve seus companheiros mortos na sua frente e que mesmo assim convive na comunidade dos sádicos que os mataram, uma hippie que nem sabe o que é paz, além da Phoenix e do Zero, que nem preciso falar - longa história. - Sendo que todos estes têm uma mentalidade e visão muito mais conservadora de segurança e estado como um todo, estão influenciando toda uma nação mundial em bases bem mais arcaicas de um estruturalismo firmado em burocracias e aristocracia datadas em anos, dominaram tudo isso em apenas menos de 2 meses. - Isso que é a verdadeira representação de classes à margem da sociedade, mesmo que não exercendo seus papéis fielmente, denotando o quanto certos liberalismos, mesmo parecendo novos, só são repetições na história de classes que antes não dominavam, exercendo sua verdadeira força mesmo que disfarçados. Isso não é política, isso é a verdadeira construção da personagem que todos nós temos um pouco.

Mesmo que já tenha me acostumado a ver tais dilemas todos os dias, acho interessante ver a reação de você, Camila (a ruivinha), quando está perto dos meus clones de uma certa individualidade forte. Os quais fumam, bebem, dialogam e compartilham de uma cultura que eu completamente não compactuo, mas admiro como um todo. Contudo, nada me tira boas gargalhadas quanto quando eu vejo você estranhando a barriga da historiadora com um filho até então de um pai clone. Literalmente, dois "eus" se envolveram - e existe coisa mais narcisista e traumática que isso?

Josperd Dias                              21/07/2029

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The Odyssey of Josperd (Excerpt): Schrödinger's Clones | Josperd D.

At first, I thought I was crazy. I see clones, both female and male versions of myself, like Phoenix and Zero, along with others with multiple personalities. Among them, a dictator, a pastor, a cook, a scientist, a physicist, a lunatic, a prostitute (or intimate term for friends), a beggar, a hippie, a communist, a historian - who, by the way, is pregnant - and an aberration, with only legs, small with a hairstyle somewhat like mine; these are just a few of the many I've seen and described to you, dear reader - the redhead, in this case.

Deciding, as a community, on a plan involving the destruction of the world's largest multinational corporation, I repeat, the world's largest! - With political and economic influence due to its monopoly. - Neolinque, which is pursuing us to conceal the frauds and abuses they committed against the clones and my image.

But when I realized... From a second perspective, of course, that what I was witnessing was perhaps the greatest geopolitical, social, and scientific experiment of all time, I began to see all that absurdity as a true and tangible demonstration of the construction of a social contract - Stanford's prison is child's play - and it became my true moment of ecstasy. In this moment of epiphany, I realized that the clones were not mere coincidences but pieces of a sophisticated social puzzle, designed to challenge established norms.

You see, let's look internally before we look externally. Let me take that list of clones from earlier and contextualize how relevant all of this becomes: a dictator with no people to rule, an evangelical pastor who loves God and doesn't even know if he has a soul to be saved since he originated from cloning instead of divine human reproduction, a scientist who cares little about science, while a physicist rebels against the very science he practices, a cook from an enemy community to which he was abducted, a lunatic who shouldn't even have a voice in debates like these, a prostitute who - pardon the language - can't even fuck or perform her duties, considering that the mentally deteriorating historian clone is expecting a child logically conceived before a "prostitute" even could, a communist who has never heard or read Marx's ideas, a beggar who witnessed her companions being killed and yet lives among the sadists who murdered them, a hippie who doesn't know what peace is, and the Phoenix and Zero, about whom I need not elaborate - a long story. All of them, with a mentality and vision much more conservative regarding security and the state as a whole, are influencing a global nation on much more archaic foundations of structuralism rooted in bureaucracies and aristocracy dated in years, dominating all of this in just under 2 months. This is the true representation of marginalized classes in society, even if not faithfully playing their roles, indicating how certain liberalisms, though seeming new, are just repetitions in the history of classes that previously did not dominate, exerting their true strength even when disguised. This is not politics; this is the true construction of the character that we all embody to some extent.

Even though I've become accustomed to seeing such dilemmas every day, I find it interesting to see your reaction, Camila (the redhead), when you're near my clones with a strong individuality. They smoke, drink, converse, and share a culture that I completely disagree with but admire as a whole. However, nothing gives me a good laugh more than seeing you perplexed by the historian's belly carrying a child, conceived by a clone father. Literally, two "me's" got involved - is there anything more narcissistic and traumatic than that?

Josperd Dias
July 21, 2029

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